Lulo encarna o popstar dentro do popstar

Cantor estrela Modernidade, ousado projeto de CD e peça musical criada pelo diretor e compositor Rodrigo Pitta

Marco Antonio Barbosa
08/10/2001
Lulo, à esquerda e Rodrigo Pitta (clique para ampliar)
Até hoje tem gente intrigada com uma vinheta que aparecia de tempos em tempos na programação da Rede Globo de TV, que consistia em mostrar um rapaz musculoso correndo por um túnel, sob o som de uma frenética batida techno e os versos "Falta pouco / Pra daqui a pouco". O rapaz era Lulo, a música em questão era Falta Pouco... e o cara acabou não aparecendo mais... nem menos. Hoje, Lulo está no elenco de uma telenovela da Globo (As Filhas da Mãe), emplacou uma canção na trilha sonora da mesma novela (Odara, sim, a de Caetano Veloso) e terá outra na disco de uma segunda telenovela, O Clone. A faixa escolhida para este outro folhetim foi Modernidade, música-título do primeiro disco do cantor ouvir 30s. Que - por acaso - saiu pela Som Livre, gravadora afiliada à Globo. Quem ouve esta história de ascenção meteórica pode olhar com desdém e dizer "ah, é mais um artista pop fabricado". Mas o buraco é mais baixo, e quem garante isso é Rodrigo Pitta - autor de todas as músicas de Modernidade e diretor e criador do espetáculo musical do mesmo nome, que conta as desventuras de um... artista pop fabricado. Por trás deste verdadeiro nó no qual misturam-se maquinações reais e fictícias e superexposição na mídia, está um projeto que pretende revolucionar o conceito de produto pop no Brasil.

Modernidade, o CD, é a ponta de um iceberg que compreende um ambicioso musical para o teatro, estrelado pelo próprio Lulo e outros 19 cantores-atores-bailarinos (definidos por Rodrigo Pitta como performers) e uma banda de nove músicos. É a história do marginal Eu Pessoa (Lulo), capturado por uma empresa de engenharia genética e transformado no popstar Ed Sinatra - que acaba perdido num esquizofrênico conflito entre a fama e a vida real. As músicas do disco contam essa história, a partir da faixa-título (um poema inédito de Cazuza musicado por Pitta e Daniel Ribeiro). Parece complicado? Pitta, 25 anos e o cérebro atrás de Modernidade, o disco-musical, explica: "Tudo começou quando o João Araújo (então diretor da Som Livre) convidou, no ano passado, o Lulo para gravar um CD - era o primeiro artista contratado da Som Livre em dez anos! O João me convidou a produzir o disco porque eu já trabalhava com o Lulo há muito tempo, ele é membro da minha companhia teatral , a CBTM (Companhia Brasileira de Teatro Musical, montada em 1998)."

O compositor prossegue: "Sabíamos porém que não se tratava do lançamento de um cantor e sim de um performer, ou seja, um artista que sabe cantar, dançar e interpretar. Por isto o álbum já nasceu com a necessidade de se traduzir cenicamente, de maneira que todas as características artísticas de Lulo pudessem ser aproveitadas. Naturalmente esta história toda acabou se transformando em um musical, que é também um produto fonográfico, ou seja, tem vida própria também como um CD pop." Por trás do conceito de performer reside a inovação no pacote Modernidade. "Lulo é um artista completo e muito talentoso, como há muito tempo não se tem disponível no grande mercado. É um cara bonito, que canta, dança e interpreta bem. E a tarefa dele é muito importante no processo todo, pois é ele quem dá vida as idéias e pirações de uma equipe de profissionais talentosos que trabalha nos bastidores", afirma Rodrigo.

Este artista de muitos predicados foi revelado ao mundo no musical Cazas de Cazuza, grande sucesso teatral de 1999 que se inspirava livremente no universo musical e pessoal do ex-líder do Barão Vermelho. A CBTM dirigida por Rodrigo Pitta tinha como uma de suas figuras centrais Lulo Scroback, que no palco vivia o protagonista Deco. O próprio popstar conta: "Cazas de Cazuza foi a minha primeira experiência profissional. Antes disso tinha viajado para os EUA, onde frequentei aulas de canto em Nova York e cantava por hobby em um barzinho de blues que eu trabalhava, em Hollywood. Aí comecei a curtir essa coisa de cantar. Quando voltei para o Brasil fiz um CD demo e o teste para o Cazas, e fui selecionado no meio de uns 170 candidatos."

"Com o Cazas entrei para a companhia de teatro musical do Rodrigo e lá achei outras pessoas que faziam exatamente o que eu achava que poderia ser meu caminho profissional", lembra Lulo. "Pude aperfeiçoar tudo o que eu gostava mais de fazer: cantar, dançar e representar. Tornei-me um performer, coisa que antes achava impossível de acontecer no Brasil, por causa da falta de espaço para este tipo de artista que precisa do palco para sua total expressão."

Já o "menino-prodígio" Pitta faz sua estréia como compositor em Modernidade. Algo surpreendente, vista a diversidade e o ecletismo demonstrados no disco. "Minha experiência musical vem do que aprendi fazendo musicais e estudando este estilo que reune teatro e música nos EUA e na Europa", fala Rodrigo. "Sempre gostei muito de música, aos seis anos de idade já sabia cantar Construção do Chico Buarque (que é interpretada por Lulo no disco). A coisa da Broadway e dos musicais foi um lance mais adolescente que acabou virando profissão, porque em um musical todas as artes se encontram. E eu sempre quis ser artista, sempre quis ser pop."

No palco, Modernidade promete ser um choque nos desavisados. "Estamos ensaiando há quase um ano", conta Lulo. "Será um espetáculo muito dinâmico, uma mistura de cinema e teatro musical, além de poesia, música eletrônica e muita dança. Uma experiência incrível para os performers." Além da ação que se desenrola no palco ao vivo, a peça será pontuada pela projeção de um média-metragem que mostra as maquinações por trás da "fabricação" de Ed Sinatra. Susana "Tiazinha" Alves, Eliana Pittman, Monique Evans e Gerald Thomas são algumas das personalidades que figuram no filme. "É a primeira vez que teatro musical e cinema estão juntos no Brasil", ressalta Rodrigo Pitta.

A overdose de mídia que foi preparada para o lançamento de Lulo no mercado pode fazer com que ficção e realidade se confunda na cabeça das pessoas. Seria ele tão "inventado" quanto o personagem que representa? Ou não? O próprio cantor garante que não. "Modernidade é ficção. No espetaculo represento dois personagens que contam uma historia com começo meio e fim. O publico não é burro. Em Cazas de Cazuza eu vivia um drogado que morria de overdose e ninguem me pergunta hoje por que estou vivo! Sou fabricado pelos meus pais, o resto é resultado de muito trabalho", afirma Lulo. Rodrigo Pitta prefere lembrar o aspecto audacioso de Modernidade. "Temos que torcer por um projeto como este, que é bem corajoso para o mercado fonográfico atual - que não arrisca em novidades e vai pelo gosto do pop que enche o bolso. Modernidade , por mais pop que seja, tenta andar na contramão, tem arte e muitos artistas envolvidos. "



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