Mario Adnet e a purificação da música carioca

O polivalente compositor, arranjador e cantor lança Rio Carioca, álbum consagrado à Cidade Maravilhosa

Marco Antonio Barbosa
21/01/2002
O nome dele costuma aparecer em fichas técnicas de discos elogiadíssimos pela crítica, não raro associados a uma MPB de classe e sofisticação. Mas mostrar a cara mesmo é raridade para o carioca Mario Adnet, multiinstrumentista, arranjador, produtor, compositor, cantor e - talvez principalmente - incansável batalhador cultural. O idealizador (junto a Zé Nogueira) do consagrado projeto Ouro Negro ouvir 30s, tributo ao maestro Moacir Santos que amealhou todos os loas possíveis em 2001, retorna à ribalta com um trabalho próprio: o álbum Rio Carioca (MP,B / Universal Music) ouvir 30s . Trata-se de um disco concebido como um tributo à cidade do Rio de Janeiro, mas à melhor moda de Adnet: sem obviedades, de maneira sutil e não raro surpreendente.

"Todo o conceito deste disco foi pensado por muito tempo. A idéia de gravar um disco todo sobre o Rio me veio há dois anos, por isso eu pude fugir do óbvio tanto na escolha do repertório quanto na execução. Não quis cair no clichê do carioca em excesso, não tinha porquê regravar, por exemplo, Samba do Avião de novo", explica Mario. "Sempre é possível falar coisas novas sobre o Rio de Janeiro, não se precisa ficar repetindo as mesmas idéias antigas", completa. E ele teoriza mais sobre o processo de criação e estruturação de Rio Carioca: "Acabei desenvolvendo uma paixão por esse aspecto de criar um 'enredo' para o disco, uma orientação que permeasse todas as músicas dando uma coerência. Faz com que a audição do CD se assemelhe à leitura de um livro, com começo, meio e fim. Conceber isso é genial."

Concepções e teorias à parte, Rio Carioca é um disco que se nutre da musicalidade carioca, em suas várias vertentes. "É um disco de samba", arrisca Mario. E é. Tanto nas faixas de sua autoria, como Meu Carnaval ou Um Americano no Samba, quanto nas músicas alheias pinçadas para completar o repertório, o batuque é referência evidente. "Quis misturar de tudo, bossa nova, samba, choro, gafieira... gosto de citar o arranjo que fiz para Só Danço Samba (Jobim/Vinicius) como símbolo desta mistura", diz Mario. Tom Jobim, aliás, é outra baliza para a musicalidade de Adnet. "Sofri muita influência dele em meu estilo de composição", admite Mario, que resolveu a admiração pelo compositor no par de CDs Para Gershwin e Jobim ouvir 30s e Para Gershwin e Jobim - 2 Kites ouvir 30s lançados em 2000.

Além disso, o repertório de Rio Carioca tem outras sutilezas. Como Circular, de Cláudio Nucci. "Essa música tem uns vinte e tantos anos, é da época do grupo Semente, no qual eu e o Nucci tocamos juntos... era uma fase muito riponga", brinca Adnet. Outras parcerias antigas, com Lisa Ono (Meu Carnaval) e Bernardo Vilhena (A Dona do Lugar) também chamam atenção. "Minha amizade com a Lisa já tem uns 12 anos. E com o Bernardo eu faço música desde os anos 70. Essa música, A Dona do Lugar, deveria ter entrado no disco que eu gravei nos EUA em 1997 (o primeiro Para Gershwin e Jobim), mas acabou sobrando." Autor de vários clássicos, Ismael Silva é resgatado via uma canção de 1948, Marca na Parede. "É o que eu dizia sobre obviedades. Quis gravar uma música do Ismael, e o lógico seria que eu gravasse Valsa de uma Cidade, afinal é um disco que fala do Rio... mas eu descartei de cara", diz Adnet.

Os arranjos do álbum, assinados por Mario, refletem sua recente experiência com a big band arregimentada para o disco Ouro Negro. "Trabalhar naquele álbum foi como uma 'pós-graduação' para mim, especialmente em relação ao uso dos metais", fala Adnet. "O que eu aprendi, em termos de harmonização de instrumentos de 'palheta' (clarineta, oboé) com os metais (sax, trombone, tuba), pesou muito no que se ouve no Rio Carioca", fala. A participação de Adnet em Ouro Negro foi a amostra mais evidente da moral que ele tem enquanto músico e arranjador em projetos alheios. Colaborações com Joyce, Tom Jobim, Zé Renato, Ivan Lins, Paulo Moura, Roberto Menescal e muitos outros, ao longo dos mais de 20 anos de trajetória do músico, só comprovam isso. Ainda que em detrimento da projeção de sua carreira individual.

"Faço música há muito tempo, mas sempre tive que cavar meu próprio espaço. Deixo-me ficar longos períodos sem gravar, mesmo porque nunca tive contrato com gravadora alguma - não valeria a pena para alguém como eu", afirma Adnet. Fundamental para o músico, então, é buscar apoio em leis de incentivo à cultura, de onde vêm as verbas para bancar seus projetos. Rio Carioca foi financiado pela RioArte (ligada à Secretaria das Culturas da cidade do Rio). "É preciso inventar meios de realizar a nossa arte", reflete Mario. "Ao contrário do que o Jobim disse, a saída do músico brasileiro não é o aeroporto. Se não dá para brigar com o que as gravadoras impõem, vamos buscar um outro meio."

O título do disco provém do rio homônimo, que nasce nas Paineiras (Zona Sul do Rio de Janeiro) e vem descendo os morros cariocas até o Centro da cidade. "Entre as pesquisas que realizei para me preparar para o disco, conheci em um livro do (pesquisador) Mozart Araújo, Rapsódia Brasileira, a lenda do Rio Carioca e sua ligação com a música", conta Mario. "Na época da colonização francesa do Rio, no século XVII, os europeus sacaram a musicalidade dos índios tamoios, que moravam às margens do rio. Diziam que quem se banhava naquelas águas ficava com a voz mais doce, e que os instrumentos afinados ali eram mais melodiosos." Hoje, com o crescimento desordenado da cidade, o Rio Carioca está completamente poluído. Mas Mario Adnet quer puxar uma campanha para recuperar o curso d'água, baseado na sua importância histórica. "Limpar o Rio Carioca é limpar a cultura musical da cidade", acredita.